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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Trump deixou Flávio Bolsonaro à deriva? O que o New York Times e o Washington Post disseram sobre o assunto.

 
Gabriela Cuzzuol
gabriela.ribeiro@ndmais.com.br
 
A relação de Trump com Flávio envolve liberdade de expressão, democracia e relações comerciais com o Brasil, incluindo a exploração das reservas de terras raras.

Donald Trump negou, no sábado (31), que pretenda se encontrar com Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. No entanto, voltou a criticar o processo eleitoral brasileiro e afirmou que o senador pode ficar no país “pelo tempo que quiser”. “Não tenho planos de me reunir com ele, mas ele foi tratado de forma mesquinha”, disse Trump durante uma festa de Halloween na Flórida. Horas antes, Marco Rubio disse que o governo norte-americano não ajudou Flávio a deixar o Brasil. Segundo o secretário de Estado, o senador já tinha visto e o presidente apenas autorizou sua entrada e assegurou o chamado humanitarian parole, uma permissão temporária de permanência por razões humanitárias. Flávio agradeceu a Trump e a Javier Milei pela ajuda para deixar o Brasil. Em carta divulgada no dia 28 de outubro, alegou fraude e criticou a extensão da votação até as 19:00h, determinada por Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, a pedido da campanha do PT.

Dois dos principais jornais do país, o The New York Times e o Washington Post publicaram artigos comentando a reação do governo americano às eleições brasileiras, mas não mencionaram abandono – nem acolhimento. O primeiro criticou a interferência de Trump na eleição e apontou que, embora sem endossar Flávio formalmente, o presidente agiu para favorecê-lo. Já o segundo questionou a atuação do Judiciário brasileiro, mas defendeu que Flávio liderasse a oposição no Brasil, não nos Estados Unidos. Existe uma distância entre acolher o senador e comprar sua briga política. Trump abriu a porta dos Estados Unidos; mas ainda não disse até que ponto pretende seguir com ele.

New York Times: Trump agiu como se tivesse endossado Flávio.
No editorial Trump Should Stay Out of Brazilian Politics, o conselho editorial do New York Times diz que o presidente não declarou apoio formal a Flávio, em parte para não prejudicá-lo nas urnas. Ainda assim, na avaliação do jornal, “fez tudo, menos endossá-lo oficialmente”. Integrantes do governo teriam ajudado Flávio a deixar o Brasil. Um assessor da Casa Branca, James Milles, teria conseguido um avião particular, enquanto Marco Rubio teria providenciado os vistos. Segundo o NYT, Trump favorece líderes com os quais se alinha e prejudica seus opositores. Como exemplos, cita as tarifas de 50% sobre a maior parte das importações brasileiras e as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e sua mulher. Para o jornal, as tarifas enfraqueceram a economia brasileira e foram uma interferência indevida:

“Essa intromissão prejudica a democracia e os interesses nacionais dos Estados Unidos. Interferir nas eleições de um Estado democrático é antidemocrático: afinal, os americanos não fazem parte do corpo político brasileiro.”

A crítica vai além do Brasil. O jornal cita manifestações de apoio de Trump a candidatos na Argentina, na Colômbia, em Honduras, na Hungria, em Israel, no Japão e na Polônia. Para o conselho editorial, essa postura prejudica a democracia e os próprios interesses americanos. O argumento central é que cabe aos brasileiros, e não aos políticos norte-americanos, decidirem o futuro do país. O texto não fez nenhuma menção às críticas realizadas pelo senador e ex-candidato Flávio Bolsonaro.

Washington Post publicou texto equilibrado.
O editorial do Washington Post adota um tom mais equilibrado: aponta erros da família Bolsonaro, mas defende que a Justiça conduza as investigações com imparcialidade. Publicado em 28 de outubro, When Judges Become Prosecutors parte da ideia de que perder uma eleição não deveria levar um candidato a deixar o próprio país. Para o jornal, a ida de Flávio aos Estados Unidos também levanta dúvidas sobre a confiança no sistema de Justiça brasileiro. O editorial critica o que considera excesso de poder do Judiciário e cita o inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal em 2019. Segundo o texto, ministros passaram, em determinados casos, a atuar como investigadores, acusadores e julgadores. O jornal também menciona a suspensão do X no Brasil, determinada por Moraes em 2024, e a multa diária de R$50 mil para quem usasse uma VPN para acessar a plataforma. O serviço voltou a funcionar depois que a empresa concordou em cumprir ordens judiciais, pagar multas e nomear um representante legal no país. O episódio colocou o Brasil ao lado de países como China, Irã e Turcomenistão entre os que restringem a liberdade de expressão. De acordo com o editorial, as decisões do ministro Moraes impactam o ambiente de negócios: a insegurança jurídica é um dos fatores que tende a afastar investimentos.

“Um empresário que avalia construir uma fábrica no Brasil não pode dissociar o tratamento dado aos políticos daquele que sua empresa poderá receber dos tribunais”, afirma.

Post afirma que Flávio deveria liderar a oposição no Brasil.
O jornal destaca que a saída de Flávio do país não prova sua inocência, assim como a investigação não prova sua culpa. Também defende que as garantias do devido processo legal sejam asseguradas a um acusado com o sobrenome Bolsonaro.

Instagram.
Para o Washington Post, Flávio deveria se preparar para liderar a oposição sem deixar seu país.

“Uma democracia saudável precisa de derrotados que aceitem a derrota e de um sistema de Justiça no qual possam fazê-lo com segurança.”

O que os editoriais não dizem: a importância de um aliado como Flávio Bolsonaro.

Os textos apresentam críticas diferentes e não comprovam um acordo entre Trump e Flávio. O New York Times descreve a atuação de Trump antes da eleição como uma interferência que favoreceu o senador e seu pai. O Washington Post critica o Judiciário brasileiro, mas ressalta que deixar o país não prova a inocência de Flávio. Com base apenas nesses editoriais, não é possível afirmar que Trump tenha abandonado Flávio ou negociado com ele sua saída do Brasil. O New York Times sustenta que Trump apoiou, na prática, a direita brasileira, sem formalizar um endosso ao senador. Já o Washington Post defende que Flávio volte ao centro da disputa política brasileira e lidere a oposição no Congresso.

Há um ponto que nenhum dos dois aborda: a utilidade de um aliado como Flávio para o governo Trump.
Os Estados Unidos ainda dependem de importações de terras raras. Segundo estimativa do USGS para o período de 2020 a 2023, a China respondeu por 56% do consumo americano de compostos e metais desses minerais. O interesse em diversificar fornecedores ajuda a explicar a atenção de Washington ao setor. Em setembro de 2026, a empresa americana USA Rare Earth concluiu a compra da Serra Verde, operadora da mina Pela Ema, em Goiás – a única produtora brasileira de terras raras em escala comercial. Nesse cenário, um aliado como Flávio Bolsonaro pode ser importante para Trump. O senador tem mais de duas décadas de atuação política e conhece o funcionamento do Congresso e as articulações necessárias para aprovar medidas e concessões. O plano de governo de Flávio propõe parcerias internacionais para atrair investimentos em tecnologia para a exploração de minerais críticos. Também defende a recomposição das relações comerciais com os Estados Unidos. Ter Flávio como conselheiro, ainda que informal, poderia ser valioso para Trump e influenciar a relação entre os dois países. O senador também poderia funcionar como instrumento de pressão sobre Lula enquanto Washington negocia com o governo brasileiro.

Ao criticar o processo eleitoral brasileiro e, ao mesmo tempo, dizer que não pretende se encontrar com Flávio, Trump sinaliza que não quer travar as negociações com Lula. Mas deixa claro que não se sentará à mesa sem poder de barganha. Não se trata de um aliado qualquer. Flávio é uma figura influente na política brasileira, e o Brasil é o 17º maior parceiro comercial dos Estados Unidos. O país também pode se tornar um fornecedor importante de uma das matérias-primas mais estratégicas da atualidade. Essa arquitetura política ganha contornos sofisticados. E, ao que parece, o povo brasileiro não é a principal peça desse tabuleiro.

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