Aparelho celular apreendido pela PF mostra
alinhamento de 90% do banqueiro com a direita.
Redação Brasil 247
247 – Exame realizado nos dados extraídos do telefone celular de Daniel Vorcaro revelou que a esmagadora maioria de suas conexões institucionais e políticas se concentrava no núcleo do poder do governo Jair Bolsonaro (PL), demonstrando que mais de 70% das conversas mantidas pelo empresário com autoridades públicas tinham como interlocutores ex-integrantes da gestão anterior, aponta reportagem da revista Piauí em parceria com o InterSecLab. A perícia digital desenvolvida no dispositivo recolhido pela Polícia Federal — apreendido no dia seguinte à primeira prisão do banqueiro, que se encontra sob custódia preventiva na Papudinha — catalogou 41,6 mil registros de comunicação via mensagens escritas, áudios, imagens e chamadas telefônicas com figuras do ecossistema político. Do volume global dessas tratativas, 90% envolveram personalidades identificadas com a direita, enquanto o centro respondeu por 9% e a esquerda registrou apenas 1%. Além disso, a presença feminina nas interlocuções foi residual, atingindo somente 0,2% do total de trocas de mensagens e chamadas.
O grau de proximidade com o grupo que comandava o Poder Executivo entre 2019 e 2022 traduziu-se em articulações que foram desde propostas para alterar legislações sobre socorro a instituições financeiras em crise até a captação de R$ 1,87 bilhão em recursos de regimes próprios de previdência de estados e municípios, cujos aportes ficaram desprovidos de garantia com a posterior liquidação do banco. O mapeamento pericial demonstrou ainda a utilização recorrente de recursos de autodestruição de dados por parte de autoridades e aliados, resultando em milhares de diálogos que expiraram ou foram apagados antes do acesso policial. Em contraposição à intensa movimentação com o campo conservador, o relacionamento com legendas progressistas ou gestões de esquerda restringiu-se a interações pontuais e à prestação de serviços técnicos e consultorias formais. A profunda intimidade do banqueiro com esse ecossistema político é sintetizada no gráfico pericial intitulado “Brotherômetro”, que contabilizou o uso de expressões afetuosas e informais como “irmão”, “irmãozão”, “mermão”, “mano” e “brother”. As figurantes de maior destaque e frequência nessas trocas foram Fábio Faria (ex-ministro das Comunicações) e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A lista de interlocutores da direita e da ex-gestão federal inclui ainda Bruno Bianco (ex-AGU), Ciro Nogueira (ex-Casa Civil), do PP do Piauí, Antonio Rueda (presidente do União Brasil), João Doria, Fabio Wajngarten (ex-Secom), Mário Frias (ex-Cultura), do PL de São Paulo, João Roma (PL-BA) e Ronaldo Bento (ambos ex-ministros da Cidadania). Wajngarten, contratado para a gestão de crise, intermediou repasses de R$ 20 milhões à TV Record e de R$ 3,2 milhões para sua empresa privada, além de gerenciar a veiculação de notícias favoráveis à instituição. No âmbito legislativo e estadual, constam diálogos com o ex-deputado Marcelo Queiroz — articulador de emendas ao projeto de liquidação bancária —, ACM Neto (União), Cláudio Castro (PL-RJ), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Davi Alcolumbre (União-AP), Vinicius Poit (Novo-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG), Pablo Marçal (PRTB) e os ministros do STF Alexandre de Moraes, Kassio Nunes Marques e o pastor André Valadão.
Por outro lado, no espectro de esquerda e centro-esquerda, os contatos mapeados envolveram Guido Mantega e Ricardo Lewandowski (que mantiveram contratos de consultoria econômica e jurídica), José Dirceu (PT-SP), João Paulo Cunha, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), Walfrido dos Mares Guia e Kátia Abreu (PT). Diante dos questionamentos sobre o teor dos diálogos e das transações, os citados que responderam declararam que as conversas se limitaram ao exercício legítimo da advocacia, consultorias privadas ou contatos institucionais de rotina, ao passo que outros negaram proximidade ou não retornaram aos contatos da Piauí:
Bruno Bianco: declarou que todas as suas interações com Daniel Vorcaro são “decorrentes do exercício regular e legítimo da advocacia”, sem qualquer relação com o período em que atuou no governo Bolsonaro.
Fabio Wajngarten: afirmou que foi contratado pela defesa do banqueiro em abril de 2025 para realizar a gestão de sua comunicação e de crises. Atribuiu o alto número de interações ao seu papel de “agregador de notícias”, atuando na distribuição de informações para mais de 200 contatos. Sobre o repasse de R$ 20 milhões à TV Record, não esclareceu a finalidade do valor, orientando a reportagem a “perguntar pra Ana” (profissional de marketing do banco). Sobre vazamentos de informações, disse que foi ele quem levou à imprensa a informação de que Vorcaro teria investido em filmes sobre o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Michel Temer (MDB).
Antonio Rueda: justificou as interações de forma sucinta via mensagem: “Prezado, eu era advogado do banco. Obrigado”. Sobre acusações de propina, negou a informação contida na proposta de delação de Vorcaro sobre ter combinado 10% de comissão na captação de recursos de fundos de previdência.
ACM Neto: afirmou que toda a sua relação com o banqueiro se deu devido a contatos profissionais no contexto de seu trabalho de consultoria. Sobre acusações de propina, assim como Rueda, negou ter combinado percentual sobre recursos captados para o banco.
Vinicius Poit: esclareceu que, durante sua campanha em 2018, realizava diversos eventos e, no dia seguinte, costumava enviar mensagens padronizadas a todos os contatos pedindo apoio, voto e doações. Ressaltou que Vorcaro “nunca doou nem apoiou a campanha”.
Carlos Viana (PSD-MG): disse não se lembrar de ter procurado o banqueiro e afirmou que nunca teve qualquer tipo de interação com ele, nem por telefone nem pessoalmente. Quando confrontado com a captura de tela mostrando a chamada não atendida realizada do seu número, alegou que a foto do perfil não era dele e reiterou: “nunca falei com Vorcaro, qualquer informação diferente disso é falsa”.
Newton Cardoso Jr. (MDB-MG): minimizou a relação citando apenas três interações pontuais: “a única interação com Vorcaro na vida foi que ele pediu dinheiro emprestado ao meu saudoso pai e nós dissemos não”.
Elmar Nascimento (União-BA): declarou incialmente: “falei umas dez vezes com ele”, embora os registros periciados apontem conversas em 45 dias diferentes envolvendo assuntos como festas e edição de projetos de lei.
Guido Mantega: afirmou que foi contratado pelo Banco Master entre 2024 e 2025 para a prestação de serviços de consultoria econômica.
Ricardo Lewandowski: declarou que seu escritório mantinha contrato de consultoria com o Banco Master e ressaltou que, após seu afastamento da firma, não tratou de temas relacionados ao ministério.
José Dirceu: negou categoricamente os contatos registrados pela perícia, afirmando: “não tenho nem nunca tive o celular de Vorcaro”.
Walfrido dos Mares Guia: afirmou que “as interações com Vorcaro ocorreram estritamente no contexto de relações corporativas e negócios da esfera privada”, majoritariamente focadas nas operações da empresa Biomm, da qual é sócio.
Kátia Abreu: declarou que, até 2022 (quando exerceu o mandato de senadora), nunca havia falado com o banqueiro. Sobre o período posterior, rebateu: “depois disso na vida privada não tenho satisfações a dar a vc“.
Alexandre de Moraes: não detalhou o conteúdo das conversas que expiraram e informou que suas alegações a respeito do material do celular foram apresentadas formalmente em petição protocolada no próprio STF.
Kassio Nunes Marques: não explicou o teor do conteúdo das mensagens apagadas e afirmou que nunca trocou mensagens com o banqueiro.
Não responderam aos questionamentos: Fábio Faria, Ciro Nogueira, Hugo Motta, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Chiquinho Feitosa, Pablo Marçal, Guilherme Mussi, Irajá, Marcelo Aro, Renilce Nicodemos, Marcelo Queiroz, Cezinha de Madureira, Marcelo Squassoni, Ibaneis Rocha, Silvio Costa Filho, Aguinaldo Ribeiro, Dr. Luizinho, Romero Rodrigues, Eduardo Braga, Otto Alencar, Celina Leão, João Paulo Cunha e Benedito Gonçalves.
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