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sábado, 31 de outubro de 2026

O povo brasileiro passou no teste, ao contrário dos americanos.


Trajetória brasileira seguia os passos da política americana desde 2018. 
Quebra em 2026 simboliza escolha do eleitor pelo caminho da democracia.

Há oito anos, o Brasil escolheu seguir passo a passo, com dois anos de atraso, o roteiro traçado pelos Estados Unidos. O populismo autoritário de Donald Trump, eleito em 2016, foi seguido pelo de Jair Bolsonaro, escolhido pelas urnas em 2018. A tentativa de golpe após a eleição americana de 2020 foi seguida por outra brasileira em 2022; ambas culminaram com um episódio de multidões, arregimentadas pelos aspirantes a autocratas, destruindo prédios-símbolo das respectivas repúblicas. Houve, então, uma primeira divergência. Nos EUA, Trump escapou de punição pela sua tentativa de golpe, e em 2024 os eleitores americanos o elevaram uma vez mais à Presidência. Com a impunidade chancelada pela absurda decisão da Suprema Corte que declarou os presidentes imunes a qualquer punição criminal por “atos oficiais”, voltou ao poder com o intuito de governar como um autêntico autocrata eleito. No Brasil, em contraste, o dito “Trump dos trópicos” foi castigado. Primeiro, com a anuência tácita de todo o establishment político brasileiro, Jair Bolsonaro foi banido do cenário eleitoral. Em setembro de 2025, ele e vários de seus cúmplices na tentativa de golpe foram julgados, condenados e presos. Como à época afirmei, isso não foi pouco. Pareceu, naquele momento, que o Brasil traçaria um caminho distinto, escolhendo a proteção da democracia contra aqueles que violaram seu princípio mais inegociável: quem perde uma eleição vai para casa. 

Infelizmente, ao longo de 2026, pareceu cada vez mais provável que voltaríamos várias casinhas, indo uma vez mais ao encontro do sórdido caminho de colapso democrático desbravado pelos EUA. De dosimetria em dosimetria, para usar o eufemismo a que se aferraram os apologistas do golpismo, Jair Bolsonaro foi para casa e, ainda que preso, conseguiu retomar o controle da direita, tal como Trump. Não podendo se candidatar, impôs seu filho, o pouquíssimo talentoso Flávio, como o “poste” da vez, confiando nos laços de sangue como aposta para viabilizar a continuidade de seu projeto. E o pior é que tudo caminhava para um retumbante sucesso dessa estratégia. A liderança no primeiro turno, somada à eleição de uma numerosa bancada bolsonarista para o Congresso Nacional, pressagiava o retorno triunfal daquele que parecia ter sido finalmente alijado do jogo democrático que vilipendiara.

O risco era enorme.  
Não apenas porque a história demonstra, com fartas evidências, que é nos segundos mandatos que avançam rapidamente os projetos autoritários que parasitam e corroem por dentro várias democracias. Mas também porque o bolsonarismo carrega em seu DNA os vícios de seu lugar de origem: a política do Rio de Janeiro, um estado-máfia dominado pelo crime organizado, pelas milícias e pela corrupção endêmica. Se Jair representa um organismo transplantado que ali vicejou e cresceu, Flávio é uma criatura do pântano: sua existência política não seria concebível fora do lodo. O Brasil estava, portanto, prestes a entregar seu destino à fina flor da política fluminense. Precisamos dar ao eleitor brasileiro o crédito que ele merece: ele se deu conta de que tinha muito a perder e escolheu dar meia volta, em vez de prosseguir no caminho da erosão democrática

Tivemos no domingo (25), porém, o que quase ninguém esperava, a última reviravolta do roteirista insano que parece escrever a trajetória política do Brasil. Após parecer mais uma vez requentar as fórmulas da série de horror que há anos se mantém no ar na América do Norte, ele engendrou a cena mais surpreendente: o povo brasileiro disse “não”.  E não foi um “não” tímido. Confrontado com a possibilidade de um presidente do naipe de Flávio Bolsonaro, com seu histórico político, e de lhe dar um poder insolitamente extenso — maioria no Congresso, possibilidade de consolidar uma maioria no Supremo Tribunal Federal, apoio irrestrito de um governo americano sem nenhum pudor de se imiscuir nos assuntos de outros países —,  o eleitor brasileiro não deixou margem à dúvida. Isso foi de uma importância fundamental. No prazo imediato, porque cortou pela raiz a tentativa de contestação que o candidato derrotado chegou a ensaiar. Mais ainda, porque retirou do bolsonarismo qualquer tipo de reivindicação de apoio majoritário.

A comparação com os EUA, como tantas vezes, é particularmente útil aqui. Não podemos exagerar o impacto do fato de que Trump obteve, em 2024, mais votos que a rival democrata, Kamala Harris. A express da moda, naquele momento, era “vibe shift”: uma mudança de ventos não apenas política como cultural. O país havia aparentemente revelado sua essência MAGA, e cabia a todos se alinhar ou sucumbir. Os escritórios de advocacia, as universidades, os executivos de Hollywood: todos (ou muitos) em alguma medida se alinharam. Os tech bros recém-convertidos, entusiasticamente, ao catecismo da extrema direita davam o tom. A devastação infligida pelo segundo mandato trumpista à democracia americana não teria sido possível sem isso. O bolsonarismo teria, sem dúvida nenhuma, adotado postura semelhante. Com efeito, o resultado do primeiro turno já foi o bastante para que isso ficasse mais que evidente, no triunfalismo da campanha de Flávio nos dias que se seguiram. Parece-me que foi isso, antes de tudo, que o povo brasileiro viu e rejeitou. Sim, os desafios seguem imensos, assim como as perspectivas de dificuldades políticas para os próximos anos, num cenário econômico crítico. Não está nada claro, a julgar pelo desempenho do terceiro governo Lula, que o próximo estará à altura desses desafios.

Mas isso fica para depois. Neste momento, a despeito da queda da bolsa ou da disparada do dólar, precisamos dar ao eleitor brasileiro o crédito que ele merece: diferentemente do que ocorreu em outras democracias supostamente maduras e estáveis por aí, ele se deu conta de que tinha muito a perder e escolheu dar meia volta, em vez de prosseguir no caminho da erosão democrática. Nos dias de hoje, não podemos pedir muito mais do que isso.

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