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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Mundo do tigrinho. A BET DE FLÁVIO BOLSONARO.

 
Documentos acessados pela Piauí no Brasil e no exterior indicam que 
o senador foi sócio indireto de uma casa de apostas online – a Best Bet.

Allan de Abreu, do Rio De Janeiro, Breno Pires, de Brasília, Felícia Cabrita, de Lisboa, e Mário Gouveia, de Funchal 

Tudo começou em janeiro de 2023. Terminava o governo de Jair Bolsonaro, e as bets, que funcionavam no Brasil desde 2018, ainda não haviam sido regulamentadas. O mundo das apostas, com isso, se transformara num vale-tudo. No vácuo regulatório, o Supremo Tribunal Federal resolveu autorizar as loterias estaduais a explorar o jogo. Abria-se assim um universo para que governos e empresários pudessem faturar alto. A possibilidade fez brilhar os olhos de Cláudio Castro (PL-RJ), então governador do Rio de Janeiro, e de Willer Tomaz, amigo de todas as horas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Naquele mesmo mês de janeiro, Tomaz entrou em ação. Com um capital de 50 mil euros, criou a Cathedral Holdings, com sede em Funchal, capital da Ilha da Madeira, em Portugal. Com isso, ele e seu sócio formal, Jorge Barbosa Dias, aproveitavam os benefícios fiscais oferecidos pela ilha, que é considerada uma espécie de paraíso fiscal. Instalaram a nova empresa numa salinha, de número 105, no Marina Club, um moderno edifício da Avenida Arriaga, uma das principais de Funchal.

Em fevereiro, veio o passo seguinte. Com um capital de 1 milhão de reais, o grupo empresarial de Tomaz criou a Rede Loto Ltda, uma empresa de apostas. Escolheu um nome fantasia para sua casa de jogos: Best Bet. A Best Bet, cuja sede ficava em São Paulo, era controlada pela Cathedral, na Ilha da Madeira. Com esse movimento, Tomaz repetia um modelo comum adotado pelas casas de aposta na época, em que empresas no exterior eram as principais controladoras das bets no país. Armava-se o cenário para Tomaz explorar as apostas que, já então, movimentavam bilhões de reais.

Em abril, deu-se o grande passo. O governador Cláudio Castro, aproveitando a decisão do STF de permitir que as loterias estaduais faturassem com bets, resolveu entrar no negócio. A Loterj, loteria do estado do Rio, abriu uma licitação, que resultou, em maio, na concessão de licenças de operação para treze empresas – entre elas, a recém-criada Best Bet. Em pouco tempo, a empresa de Willer Tomaz obteve a autorização para explorar o jogo, em despacho assinado pelo presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, que ocupava o cargo por indicação de Flávio Bolsonaro, segundo o jornal Folha de S.Paulo (e cujo filho, o advogado Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou como assessor no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques entre agosto de 2020 e junho deste ano). Em julho, outra boa notícia: graças a uma gambiarra permitida pela Loterj, a Best Bet passou a operar nacionalmente, e não apenas no Rio, onde havia obtido a licença. Seu potencial de mercado ampliou-se enormemente.

Na mesma época em que ganhou a licitação da Loterj, Tomaz tomou uma nova providência no exterior: criou a Alcazar Holdings, também na Ilha da Madeira, com um braço no Brasil, a Alcazar Brasil Ltda, sediada em São Paulo. As conexões entre a Cathedral, dona da Best Bet, e a Alcazar são evidentes. No papel, as duas têm o mesmo dono, Willer Tomaz. Também têm o mesmo administrador, Mateo Scudeler. E as duas funcionam naquela mesma salinha de número 105 do edifício Marina Club, em Funchal. A piauí esteve no local na sexta-feira, dia 16 de outubro. Não há sinal de que as duas firmas funcionem de fato no prédio. São empresas de fachada, o que não é incomum em paraísos fiscais. No papel, a Cathedral tem apenas um funcionário. A Alcazar, nem isso.

Os registros contábeis das duas empresas, obtidos pela piauí junto à Iberinform, empresa espanhola com filial em Portugal e especializada em informações comerciais e análise de risco de crédito, mostram ainda outros vínculos entre a Cathedral e a Alcazar. Em 2025, por exemplo, a contabilidade da Cathedral informava que a empresa era credora de 984 mil euros, um salto em relação aos 7,8 mil euros que tinha para receber no ano anterior. A contabilidade da Alcazar, por sua vez, mostrava o movimento exatamente oposto: a empresa devia 8,1 mil euros e passou a dever 824 mil euros, valores próximos ao que a Cathedral tinha para receber.

Um auditor fiscal que trabalha na Autoridade Tributária e Aduaneira, equivalente português da Receita Federal, examinou os relatórios contábeis a pedido da piauí. Ele falou sob anonimato por não ter autorização do fisco português para se manifestar publicamente. “É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”, afirmou ele, mencionando um laço que torna as gestões das duas empresas uma coisa só.
 
É exatamente neste ponto que entra em cena o senador Flávio Bolsonaro, amigo de Willer Tomaz. Conforme revelou o UOL, Flávio era “usuário máster” da conta bancária da Alcazar, no Santander. A designação “máster” refere-se a uma pessoa cadastrada no banco com elevados privilégios de acesso e de administração dos serviços bancários digitais, sobretudo de contas empresariais. Um “usuário máster” pode consultar saldos, extratos e movimentações financeiras. Pode cadastrar, alterar ou excluir outros usuários da conta. Também pode definir permissões e limites operacionais de outros usuários. E pode, por fim, fazer e autorizar transferências, pagamentos e outras operações financeiras. Na conta da Alcazar no Santander, havia apenas dois usuários máster – Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.

https://piaui.uol.com.br/