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terça-feira, 28 de julho de 2026

FMI cobra Argentina por dívida de US$ 57 bilhões e Milei tenta virar a página.


Visita de Kristalina Georgieva ocorre em meio à melhora da economia argentina, mas país enfrenta o desafio de voltar aos mercados e pagar dívida bilionária com o FMI.

Por Bloomberg 

Oito anos, três acordos e US$ 57 bilhões desde a última visita de uma líder do FMI à Argentina, Kristalina Georgieva chegou na segunda-feira (27) a Buenos Aires para acompanhar de perto a recuperação econômica promovida pelo presidente Javier Milei. Os tempos mudaram para melhor na relação entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e seu maior devedor. Mas o verdadeiro teste — o pagamento da dívida — está prestes a começar. Isso levanta dúvidas sobre se o FMI algum dia conseguirá sair da Argentina, ou vice-versa, e se Georgieva conseguirá transformar um fracasso em uma grande conquista. A visita ocorre em um momento considerado favorável para o governo Milei, e o fato de ser a primeira viagem da diretora-gerente do FMI ao país desde que assumiu o cargo reflete essa mudança. Os títulos argentinos subiram, a inflação caiu e o Banco Central está reconstruindo suas reservas de caixa necessárias para pagar o FMI. A economia está crescendo, embora de forma desigual, e Georgieva verá de perto a principal história de sucesso da Argentina: o boom do petróleo na Patagônia, que vem atraindo bilhões de dólares em investimentos.“O governo fez um progresso extraordinário”, disse Martin Mühleisen, ex-funcionário do Fundo e pesquisador sênior do Atlantic Council. “Agora existe ao menos a possibilidade de que a Argentina consiga eventualmente quitar sua enorme exposição ao FMI.”

Segundo o governo argentino, Georgieva fararia uma coletiva de imprensa com o ministro da Economia, Luis Caputo, às 13:00h no horário de Buenos Aires e depois se reuniria com Milei no palácio presidencial. A chegada de Georgieva seria difícil de imaginar apenas três anos atrás, quando funcionários do FMI descreviam uma “crise completa” antes das eleições presidenciais argentinas, com inflação acima de 100% e uma profunda recessão em andamento. Após 23 programas em quase 70 anos, o FMI ainda é alvo de forte rejeição na Argentina e visto por muitos cidadãos como um dos responsáveis pelas crises econômicas nas quais a instituição esteve envolvida.

Georgieva herdou as dívidas da Argentina com o FMI ao assumir o cargo, em 2019, depois que sua antecessora, Christine Lagarde, não conseguiu resgatar o governo anterior com um pacote de socorro recorde firmado no ano anterior e posteriormente deixou o Fundo para comandar o Banco Central Europeu. Um novo acordo em 2022, criado para refinanciar o programa anterior, teve resultado ainda pior, à medida que a crise se aprofundou. Milei fechou seu acordo com o FMI em abril de 2025.

Em setembro, a Argentina começará a pagar o principal da dívida, levando os pagamentos, incluindo juros, a cerca de US$ 3 bilhões no restante de 2026. Esse valor mais que dobra no ano seguinte, e o próximo governo argentino terá de pagar pelo menos US$ 9,5 bilhões por ano entre 2028 e 2031, segundo o FMI. Os pagamentos estão programados até 2042, por enquanto, e o governo afirma que não pretende refinanciar suas dívidas pelo menos no próximo ano, quando termina o atual mandato de Milei. Ex-funcionários do FMI dizem que praticamente tudo precisa dar certo para que Milei consiga encerrar, em algum momento, a dependência da Argentina em relação ao Fundo.“Se a Argentina conseguir obter os dólares necessários para pagar o FMI, os detentores de títulos e outros credores, e se Milei sair vitorioso nas eleições do próximo ano, o ciclo será rompido”, disse Douglas Rediker, ex-representante dos Estados Unidos no FMI.“Se qualquer um desses fatores não acontecer, o país terá de buscar mais tolerância do FMI — incluindo um novo programa para ajudar a pagar os anteriores —, dar calote em outros credores ou recorrer ao tipo de engenharia financeira que Milei prometeu desmontar quando chegou ao poder.” O principal elemento que ainda falta é o retorno da Argentina aos mercados internacionais, um próximo passo desejado por Georgieva, mas que Milei não pretende buscar neste momento.

O acesso aos mercados ajudaria a garantir que o FMI receba seu dinheiro de volta e substituiria uma estratégia de dívida fragmentada, dependente do mercado doméstico argentino, que funcionou até agora, mas que pode não ser sustentável diante do aumento dos pagamentos nos próximos anos. Milei evitou Wall Street enquanto demonstrava frustração com o fato de os prêmios de risco dos títulos argentinos refletirem mais o medo de uma nova mudança política nas eleições do próximo ano do que seus resultados econômicos. O ceticismo dos investidores sobre a continuidade das políticas econômicas na Argentina tem fundamento. Desde três acordos com o FMI firmados a partir de 2018, o país passou por três presidentes, seis ministros da Economia e cinco presidentes do Banco Central.
 
A economia passou a maior parte desse período em recessão, e a inflação, hoje em 34%, chegou perto de 300% pouco depois da posse de Milei. Embora Milei e Georgieva demonstrem apoio público um ao outro, a relação nem sempre foi tranquila. Milei criticou duramente Rodrigo Valdes, alto funcionário do FMI indicado por Georgieva, até que ele se afastou das negociações. Georgieva também recuou de comentários feitos no ano passado antes das eleições legislativas, quando afirmou aos eleitores argentinos que “é muito importante que eles não desviem da vontade de mudança”. A declaração foi criticada em Buenos Aires como uma interferência eleitoral. Desta vez, ela evita a política argentina ao visitar o país com mais de um ano de antecedência em relação à eleição presidencial de 2027. O FMI também passou a ser menos associado a cortes de gastos desde que Milei empunhou uma motosserra para simbolizar sua campanha de austeridade, revertendo a percepção histórica de que o Fundo obrigava governos argentinos relutantes a reduzir despesas.

Apesar dos avanços obtidos até agora, ainda não está claro se o programa de Milei com o FMI será o último da Argentina.“O país pode estar começando a sair desse ciclo”, disse Kezia McKeague, diretora-gerente da consultoria McLarty Associates, em Washington. “Mas ainda não conseguiu se libertar dele.”

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